sexta-feira, 3 de agosto de 2012
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Portão C-22 /Gate C22
Um poema de Ellen Bass, grande poeta americana, tradução livre minha/ A
poem by Ellen Bass, great American poet, my free translation.
At gate C22 in the Portland airport
a man in a broad-band leather hat kissed
a woman arriving from Orange County.
They kissed and kissed and kissed. Long after
the other passengers clicked the handles of their carry-ons
and wheeled briskly toward short-term parking,
the couple stood there, arms wrapped around each other
like he'd just staggered off the boat at Ellis Island,
like she'd been released at last from ICU, snapped
out of a coma, survived bone cancer, made it down
from Annapurna in only the clothes she was wearing.
Neither of them was young. His beard was gray.
She carried a few extra pounds you could imagine
her saying she had to lose. But they kissed lavish
kisses like the ocean in the early morning,
the way it gathers and swells, sucking
each rock under, swallowing it
again and again. We were all watching--
passengers waiting for the delayed flight
toSan Jose ,
the stewardesses, the pilots,
the aproned woman icing Cinnabons, the man selling
sunglasses. We couldn't look away. We could
taste the kisses crushed in our mouths.
But the best part was his face. When he drew back
and looked at her, his smile soft with wonder, almost
as though he were a mother still open from giving birth,
as your mother must have looked at you, no matter
what happened after--if she beat you or left you or
you're lonely now--you once lay there, the vernix
not yet wiped off, and someone gazed at you
as if you were the first sunrise seen from the Earth.
The whole wing of the airport hushed,
all of us trying to slip into that woman's middle-aged body,
her plaid Bermuda shorts, sleeveless blouse, glasses,
little gold hoop earrings, tilting our heads up.
Beijavam, beijavam, beijavam. Até depois
dos passageiros terem clicado as alças das bagagens
rodinhas apressadas pro estacionamento de meia hora,
o casal ficou entrelaçado
como se êle tivesse desembarcado da Ilha Ellis dos imigrantes,
como se ela tivesse tido alta do Hospital das Emergências, saída
de uma coma, sobrevivente em remissão da leucemia, retornada
de Annapurna só com aquela roupa que vestia.
que precisava emagrecer. Mas êles se beijavam luxuriosos
beijos no mar de madrugada,
no mar que se ajunta e se expande chupando
seixa engolida, uma vez mais e depois de novo.
para San Jose, as aeromoças, os pilôtos,
as mulheres de avental pincelando cobertura nos doces
o homem vendendo óculos escuros.
Não podiamos olhar pra outra parte. Sentiamos
aquele beijo esmagado em nossas bôcas.
se êle fôsse a mãe ainda aberta para o parto,
como sua mãe deve ter olhado pra você, não importa
o que passou depois – se ela te abusou, se ela te bateu,
se você hoje está sózinho – nalguma placenta, nalgum nascimento
alguém olhou pra você e te viu
como se você fôsse o primeiro nascer do sol na terra.
daquela mulher roliça de meia idade,
shortinho Bermuda xadrez, camiseta sem mangas, óculos,
brinquinhos de ouro
e uma viradinha da cabeça
todos olhando pra cima.
poema de Ellen Bass
tradução livre de Erica Weick
Gate C22
At gate C22 in the Portland airport
a man in a broad-band leather hat kissed
a woman arriving from Orange County.
They kissed and kissed and kissed. Long after
the other passengers clicked the handles of their carry-ons
and wheeled briskly toward short-term parking,
the couple stood there, arms wrapped around each other
like he'd just staggered off the boat at Ellis Island,
like she'd been released at last from ICU, snapped
out of a coma, survived bone cancer, made it down
from Annapurna in only the clothes she was wearing.
Neither of them was young. His beard was gray.
She carried a few extra pounds you could imagine
her saying she had to lose. But they kissed lavish
kisses like the ocean in the early morning,
the way it gathers and swells, sucking
each rock under, swallowing it
again and again. We were all watching--
passengers waiting for the delayed flight
to
the aproned woman icing Cinnabons, the man selling
sunglasses. We couldn't look away. We could
taste the kisses crushed in our mouths.
But the best part was his face. When he drew back
and looked at her, his smile soft with wonder, almost
as though he were a mother still open from giving birth,
as your mother must have looked at you, no matter
what happened after--if she beat you or left you or
you're lonely now--you once lay there, the vernix
not yet wiped off, and someone gazed at you
as if you were the first sunrise seen from the Earth.
The whole wing of the airport hushed,
all of us trying to slip into that woman's middle-aged body,
her plaid Bermuda shorts, sleeveless blouse, glasses,
little gold hoop earrings, tilting our heads up.
by Ellen Bass
Portão C-22
No portão C-22 do aeroporto de
Portland
um homem com chapéu de couro de banda larga beijava
uma mulher chegada de Orange na
California.um homem com chapéu de couro de banda larga beijava
Beijavam, beijavam, beijavam. Até depois
dos passageiros terem clicado as alças das bagagens
rodinhas apressadas pro estacionamento de meia hora,
o casal ficou entrelaçado
como se êle tivesse desembarcado da Ilha Ellis dos imigrantes,
como se ela tivesse tido alta do Hospital das Emergências, saída
de uma coma, sobrevivente em remissão da leucemia, retornada
de Annapurna só com aquela roupa que vestia.
Nenhum dos dois era jovem. A barba dêle grisalha,
ela roliça e se imagina dizendoque precisava emagrecer. Mas êles se beijavam luxuriosos
beijos no mar de madrugada,
no mar que se ajunta e se expande chupando
seixa engolida, uma vez mais e depois de novo.
Nós olhando isso,
passageiros de nossos vôos
atrasadospara San Jose, as aeromoças, os pilôtos,
as mulheres de avental pincelando cobertura nos doces
o homem vendendo óculos escuros.
Não podiamos olhar pra outra parte. Sentiamos
aquele beijo esmagado em nossas bôcas.
Mas o melhor foi a cara
dêle. Quando se afastou
e olhou pra ela, no sorriso macio
de mistério, comose êle fôsse a mãe ainda aberta para o parto,
como sua mãe deve ter olhado pra você, não importa
o que passou depois – se ela te abusou, se ela te bateu,
se você hoje está sózinho – nalguma placenta, nalgum nascimento
alguém olhou pra você e te viu
como se você fôsse o primeiro nascer do sol na terra.
A ala inteira do aeroporto se
calou
todos nós querendo entrar naquele corpo daquela mulher roliça de meia idade,
shortinho Bermuda xadrez, camiseta sem mangas, óculos,
brinquinhos de ouro
e uma viradinha da cabeça
todos olhando pra cima.
terça-feira, 3 de julho de 2012
TESTEMUNHAS
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Deus dos Ateus
by Ellen Bass
The god of atheists won’t burn you at the stake
or pry off your fingernails. Nor will it make you
bow or beg, rake your skin with thorns,
or buy gold leaf and stained-glass windows.
It won’t insist you fast or twist
the shape of your sexual hunger.
There are no wars fought for it, no women stoned for it.
You don’t have to veil your face for it
or bloody your knees.
You don’t have to sing.
The plums that bloom extravagantly,
the dolphins that stitch sky to sea,
each pebble and fern, pond and fish
are yours whether or not you believe.
When fog is ripped away
just as a rust red thumb slides across the moon,
the god of atheists isn’t rewarding you
for waking up in the middle of the night
and shivering barefoot in the field.
This god is not moved by the musk
of incense or bowls of oranges,
the mask brushed with cochineal,
polished rib of the lion.
Eat the macerated leaves
of the sacred plant. Dance
till the stars blur to a spangly river.
Rain, if it comes, will come.
This god loves the virus as much as the child.
Ode ao Deus dos Ateus
O
deus dos ateus não te queima na estaca
não
arranca tuas unhas. Não te obriga a mendigar,
não
te obriga a castigar tua carne com espinhos,
comprar
folhas de ouro e janelas de vitral
não
insiste que controles
tua
sêde sexual
não
apedreja mulheres, não declara guerra
não
cobre a tua face em véus, não te
ensanguenta
os joelhos, não te obriga a cantar.
As
ameixas exuberantes da primavera
os
dolfinhos costurando o céu ao mar
as
pedrinhas, as samambaias
as
águas e o peixes
são
teus, acreditando ou não.
O
deus dos ateus não te recompensa
quando
a neblina se arranha
enferrujada
num vislumbre da lua
no
acordar de madrugada
tremendo
descalço nos campos.
Êsse
deus não se enternece com almíscar
do
incenso, com a cesta de laranjas
com
a máscara de cochinilha
come
a costela polida do leão.
Come
das folhas maceradas
da
palmeira sagrada. Dança
até
as estrêlas cairem no rio estrelado.
Chuva,
se vier, virá.
Esse
deus dos ateus ama o virus
e
ama a criança.
Ellen Bass
Espelhos
Das
parecenças
Caminhar pela praia deitar no chão
e de costas para o azul
devagar pelos gigantes do céu
tigres, girafas, ursas menores,
palhaços, carneirinhos e sementinhas
Um dia depois do solstício de inverno na Bahia
onde e quando o sol parou
para respirar fundo
por três dias que fossem a madrugada se alinhou
com aquela constelação cujo nome desconheço
e a reza que se fez foi para o sol.
Mais uma vez os tempos de antes
de repente visitando o dia de hoje
uma certa tristeza misturada
com alegria tão grande
fazendo a gente chorar.
Quanto tempo faz que a gente anda
rebuscando por dentre os mapas
pelas esquinas
nos pontilhados dos caminhos
pra achar essa felicidade.
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Ninando
Grandes sonhos pontuam meus
pensamentos
no
fazer dormir
a inocência
do meu querer.
Fantasmagoric dreams place periods
onto my thoughts
lullabye to sleep
the innocence
of my wants.
DEJA VU
FESTA
Ah,
não me falem da energia, da política ou da economia,
não
quero mais as fórmulas da agricultura,
os
xizes, os ypsilons e os vês
da
produtividade no campo da soja, da cana de acúcar,
ou
mesmo da mandioca.
Que
não me venham com estórias da carochinha, americana ou européia,
essa
historia de vespas e marimbondos,
ingleses
e protestantes,
esta
ética purista, estas táticas de guerra,
êsse
contar de bombas.
Hoje
não considero pedido de papo, ocidental ou racional,
nesta
noite quente de quarta feira
tenho
poderes de imaginar
que
já é sábado (eterno sábado)
quando
as bruxas estão as sôltas.
Quando
podemos falar de coisas bem mais amenas,
podemos
parar e calar,
sem
tanta introdução,
por
exemplo,
nem
tanta sobriedade
Que
se dane a agricultura,
tôdas
as formulas preparadas para ela,
que
se dane o intelecto,
o
pensamento esvaziado
de
envolvimento emocional
Se
não te muda a vida,
se
não te toca na pele,
da
sensibilidade animal
porque
então
considerar-se
como opção?
E
que morram os políticos
profissionais
e do planejamento
e
que vivam os poetas,
os
loucos a solta
e
as crianças bem comportadas.
Carossel
de cavalinhos
nos
divertiremos muito nessa noite criança:
tocaremos
música de Satie
e
vamos pisar em ovos crus
(sem
vontade de quebrá-los)
Encontrar
todos os fantasmas
escondidos
dentro dos armários:
depois
aquarela de tom sôbre tom,
conotações
suaves,
desenharemos
sonhos,
Casinhas,
estradas,
plantações
de milho e cachoeiras.
todas
as formas, as linhas
mantendo
certa pureza,
certo
princípio.
Certo
gôsto abençoado
de
todos os começos:
certo
gôsto de aprendiz.
A
mágica de se não esperar muito
ou
de esperar muito
de
muito pouco
Pedacinhos,
Satie,
ovos crus,
com
clara, casca, gema e tudo.
Erica
Weick 10/1980
Assinar:
Postagens (Atom)